Aqui chove menos do que nalgumas bordas do Saara — e, no entanto, a ilha produz vinho, batata-doce, lentilhas, cebolas e abóboras. O segredo é uma tecnologia camponesa única no mundo, inventada depois das erupções: os enarenados. Os agricultores descobriram que uma camada de cinza vulcânica funciona como esponja do orvalho noturno e cadeado da humidade do solo — e onde o vulcão não a tinha posto, levaram-na eles próprios, às costas de camelo, campo a campo. Junta-lhe os zocos — muretes de pedra em semicírculo que travam o vento —, os buracos de La Geria e as cadeias de socalcos, e tens uma paisagem agrícola tão singular que se estuda em universidades de meio mundo. Agricultura heroica, chamam-lhe. Com razão.
Comecemos pelo problema, que é sério: em Arrecife chove, em média, pouco mais de cem milímetros por ano — menos do que em muitos pontos do deserto — e não há um único rio, nem uma nascente digna desse nome. Com essas cartas, a agricultura devia ser impossível. A resposta dos camponeses lanzaroteños é um dos sistemas agrícolas mais engenhosos do planeta, nascido — como tantas coisas aqui — da catástrofe de 1730.
Quando as cinzas do vulcão enterraram os campos, os agricultores observaram algo inesperado: as plantas que despontavam por entre o picón cresciam melhor do que antes. A gravilha vulcânica, negra e porosa, fazia três trabalhos ao mesmo tempo. De noite, a sua superfície arrefece depressa e condensa o orvalho — rega grátis do ar. De dia, atua como tampa: corta a evaporação e guarda por baixo a humidade do solo. E sempre, a sua cor escura tempera a terra e os seus poros arejam-na. Tinha nascido o enarenado: cultivo sob manto de cinza.
Onde o vulcão não tinha distribuído o seu presente, os camponeses levaram-no eles próprios: gerações inteiras a escavar picón nas roferas (pedreiras de cinza), a carregá-lo em camelos e carroças, e a espalhá-lo — palmo a palmo — sobre as terras de cultivo. Pensa nisso quando vires um campo negro e perfeito: alguém o construiu à mão, camada a camada, como quem azuleja uma ilha. Sobre os enarenados crescem hoje as batatas-doces, as cebolas, as lentilhas e as lendárias batatas da terra.
O vento, o outro inimigo, tem a sua própria arquitetura. Em La Geria, cada vinha vive num buraco escavado na cinza, protegida ainda por um zoco — um murete de pedra seca em semicírculo que desvia os alísios. Milhares de buracos e muros desenham essa paisagem de crateras verdes que parece obra de um artista e é obra da sede. No Jable, os agricultores semeiam batatas-doces e melancias diretamente sob a areia marinha, que guarda humidade como o picón, defendidas por corta-ventos de pedra ou de centeio. E nos vales do norte, socalcos de pedra sobem pelas encostas para arrancar cada gota de escorrência.
Todo o sistema funciona sem um único aspersor: é agricultura de sequeiro absoluto — "agricultura heroica", chamam-lhe os agrónomos — e a sua paisagem é tão excecional que atrai investigadores e transformou La Geria numa zona protegida e célebre. A melhor forma de a honrar está na mesa: pede produtos locais — uma salada de tomate de sequeiro, umas lentilhas, um vinho da terra — e estarás a saborear, literalmente, a vitória mais elegante que uns camponeses alguma vez arrancaram a um vulcão.
