Em Timanfaya, a Terra faz truques de magia sem trapaça. Um guia deita água num tubo cravado no chão e, segundos depois, um géiser de vapor sobe a rugir para o céu. Atiram ramos secos para um buraco e eles incendeiam-se sozinhos. A poucos centímetros abaixo da superfície, o solo ultrapassa os 100 °C; a treze metros, os 600 °C. E aqui vem o incrível: a última erupção aqui terminou há quase três séculos. Esse calor é a despedida mais longa da história — o magma que alimentou as erupções de 1730 continua a arrefecer lá em baixo, isolado por quilómetros de rocha. Em cima dessa estufa natural, um restaurante desenhado por César Manrique assa o frango. Literalmente.
O Islote de Hilario, mesmo no coração de Timanfaya, é o lugar onde mais pessoas no mundo tocaram — quase — no interior de um vulcão. Os números oficiais do Parque Nacional parecem inventados: a dez centímetros de profundidade, o solo ronda os 100-120 °C; a um metro, sobe; e a cerca de treze metros, os sensores marcam à volta de 600 °C — temperatura de forno de pizza industrial, suficiente para derreter chumbo. À superfície, no entanto, podes estar de pé tranquilamente: a fina camada de picón isola como um cobertor.
As demonstrações do parque são ciência pura com encenação. A aulaga (giesta) seca atirada para uma covacha incendeia-se em segundos, sem um único fósforo: atinge a sua temperatura de ignição por simples contacto com o solo. A água deitada nos tubos cravados na encosta desce até à zona quente, transforma-se instantaneamente em vapor — multiplicando o seu volume mais de mil vezes — e sai disparada num géiser artificial que ruge como um motor. E no restaurante El Diablo, desenhado por César Manrique, a grelha é um poço aberto sobre o calor do vulcão: o frango assa a fogo literalmente geológico, num dos assadores mais singulares do planeta.
A pergunta de um milhão: porque continua isto tão quente, se a erupção de Timanfaya terminou em 1736? A resposta é uma lição de paciência geológica. Aquelas erupções deixaram enormes volumes de magma a pouca profundidade. A rocha é um isolante magnífico — o melhor termo que existe —, por isso esse magma e as rochas que aqueceu levam quase trezentos anos a arrefecer em câmara lenta. A água subterrânea e os gases transportam parte desse calor para cima por fendas concretas: as anomalias térmicas do Islote de Hilario. Não é um vulcão "prestes a rebentar": é o borralho da fogueira, ainda vermelho debaixo da cinza.
E o futuro? Lanzarote é território vulcanicamente ativo — a sua última erupção foi em 1824, a dos vulcões de Tao, Nuevo del Fuego e Tinguatón — e por isso está permanentemente vigiada: redes de sismógrafos, sensores de gases e estações de deformação controlam cada suspiro do subsolo. Os cientistas não veem sinais de nada iminente; as erupções avisam com semanas ou meses de sintomas, e aqui tudo leva décadas de calma. Podes subir ao Islote de Hilario com a tranquilidade de estar num dos vulcões mais bem monitorizados da Europa.
Entretanto, desfruta do privilégio: em muito poucos lugares do mundo o planeta te deixa pousar a mão no seu radiador. Aqui, ainda por cima, convida-te a almoçar ao lado.
