Essas plantações de figueiras-da-índia à volta de Guatiza e Mala não são decorativas: são uma fábrica de cor. Nas suas raquetes vive a cochonilha, um inseto minúsculo que, seco e moído, produz o carmim — um dos vermelhos mais intensos e valiosos da história. No século XIX, este bichinho enriqueceu famílias inteiras: a ilha exportava toneladas de "grana" para tingir uniformes, sedas e até lábios de meia Europa. Os corantes sintéticos afundaram o negócio, mas Lanzarote nunca deixou de a colher: hoje é um dos poucos lugares da Europa onde ainda se produz, com denominação de origem própria. E sim — o carmim continua em batons e alimentos. Olha para o rótulo: E-120.
A história do vermelho perfeito começa na América: os astecas já criavam um inseto sobre os seus nopais (figueiras-da-índia) para obter um tinte carmesim que não existia na Europa. Quando os espanhóis o levaram para o velho continente, a "grana cochonilha" transformou-se em ouro vermelho: tingia os uniformes dos exércitos, as túnicas dos cardeais e os vestidos da realeza. Durante séculos, a sua produção foi quase um monopólio americano — até que, no século XIX, alguém pensou nas Canárias: o mesmo clima seco, as mesmas figueiras-da-índia felizes, mão de obra que precisava urgentemente de uma nova cultura depois da crise de outros produtos.
A experiência foi um êxito retumbante, e em Lanzarote encontrou a sua capital nas aldeias de Guatiza e Mala, no nordeste. Os campos encheram-se de tuneras (figueiras-da-índia) plantadas em quadrículas sobre o picón, e nas suas raquetes "semeava-se" — à mão, com paciência de ourives — a cochonilha. O inseto é uma cápsula minúscula, cinzento-prateada, que vive colada à planta a chupar-lhe a seiva; as fêmeas concentram no seu interior o ácido carmínico, o pigmento. A colheita era — e é — artesanato puro: raspam-se as raquetes uma a uma, seca-se o inseto ao sol e obtém-se a grana: são precisas dezenas de milhares de cochonilhas para um quilo. Em meados do século XIX, aquele pó carmesim era um dos grandes produtos de exportação das ilhas e ergueu casas senhoriais que ainda se veem pela zona.
O final da história foi escrito pela química: os corantes sintéticos, baratos e industriais, afundaram o mercado em poucas décadas. Muitos campos foram abandonados… mas Guatiza e Mala nunca largaram de vez o seu inseto. E o tempo deu-lhes razão duas vezes. Primeiro, porque o carmim natural voltou a cotar-se: é o corante E-120, presente em cosmética de gama alta, alimentação e bebidas, e os produtores artesanais canários contam hoje com o apoio de uma Denominação de Origem Protegida — a cochonilha destas ilhas é um produto com apelido oficial. Segundo, porque aquele mar de figueiras-da-índia se transformou em paisagem cultural: César Manrique escolheu precisamente uma antiga rofera de Guatiza para a sua última grande obra, o Jardín de Cactus, uma homenagem explícita ao mundo das tuneras que o rodeia.
Por isso, da próxima vez que passares pelo nordeste, olha para esses campos eriçados de raquetes verdes com outros olhos: estás a ver uma indústria do século XIX viva, um inseto que vestiu reis, e o vermelho — autêntico, orgânico e feito na ilha — que talvez tragas agora mesmo nos lábios.
