Toda grande erupção deixa lava — e lendas. Dos seis anos de fogo do século XVIII, Lanzarote ficou com duas que continuam vivas. Uma é a do diabo que dançava entre as chamas: séculos depois, César Manrique desenhou-o com o seu tridente e transformou-o no símbolo oficial de Timanfaya (as Montanhas do Fogo) — o diabinho que hoje trazes na t-shirt. A outra é a da Virgem dos Dolores: contam que, quando a lava avançava sobre Mancha Blanca, os vizinhos saíram ao seu encontro com a imagem da Virgem, e o rio de fogo deteve-se. Todo o dia 15 de setembro, metade da ilha caminha em romaria até à sua ermida para cumprir a promessa. Mito ou milagre, é a festa mais querida de Lanzarote.
Imagina seres um camponês do século XVIII. Não existe a palavra "magma", ninguém te falou de placas tectónicas, e uma noite a terra abre-se a duas léguas de tua casa: colunas de fogo, trovões subterrâneos, um clarão vermelho que não se apaga durante anos. Que explicação cabe? Para muitos ilhéus da época, aquilo só podia ser coisa do demónio. As histórias correram de boca em boca: figuras a dançar entre as chamas, o maligno a espreitar pelas bocas do vulcão. O medo precisava de um rosto, e deram-lho.
O extraordinário é o que aconteceu a esse rosto dois séculos depois. Quando se criou o Parque Nacional de Timanfaya, César Manrique — que transformava em arte tudo o que tocava — desenhou o seu emblema: um diabinho travesso de ferro, com cornos, cauda e tridente, mais simpático do que temível. Foi uma jogada de judo cultural: pegou no símbolo do terror dos seus antepassados e transformou-o na mascote mais querida da ilha. Hoje o "diabo de Timanfaya" recebe os visitantes à entrada do parque, gira como cata-vento sobre o restaurante El Diablo e viaja pelo mundo em t-shirts e ímanes de frigorífico. Poucas ilhas fizeram as pazes com o seu medo com tanto estilo.
A segunda lenda tem ermida, data e multidão. Contam que, quando as coladas avançavam sobre a aldeia de Mancha Blanca, os vizinhos — esgotadas as opções terrenas — tiraram a imagem da Virgem dos Dolores e marcharam rumo à frente de lava, enfrentando-a com uma oração. O rio de fogo, diz a tradição, parou ali mesmo. Em troca, a aldeia prometeu erguer-lhe uma ermida, promessa que demorou a cumprir-se — a lenda acrescenta que a própria Virgem se encarregou de o recordar com sinais — e que hoje é o santuário da Ermita de los Dolores, em Tinajo. A Virgem dos Vulcões é desde então a padroeira espiritual da ilha.
E aqui vem a parte bonita: a promessa continua a pagar-se. Todo o dia 15 de setembro, a ilha inteira converge em romaria sobre Mancha Blanca — a pé desde todas as aldeias, muitos em traje tradicional, com carros enfeitados, timples (pequenas guitarras canárias) e cestos de comida. A Romaria de los Dolores é a grande festa de Lanzarote: parte procissão, parte maratona popular, parte arraial. Se a tua viagem calhar nessa data, junta-te ao caminho a partir de qualquer aldeia do norte: caminhar de noite entre centenas de pessoas rumo a uma ermida iluminada, com o perfil negro dos vulcões ao fundo, é entender de repente como esta ilha transformou o medo em festa.
Geologia para o cérebro, lendas para a alma. Aqui ninguém te obriga a escolher.
