LMA

Marés: o oceano respira duas vezes por dia

Lanzarote · 3 min de leitura

Marés: o oceano respira duas vezes por dia

O Atlântico sobe e desce aqui duas vezes por dia, com diferenças que em marés vivas ultrapassam os dois metros — e sabê-lo muda as tuas férias. Com maré baixa, Famara transforma-se num espelho infinito onde a falésia se reflete como num lago; os charcos do norte — as piscinas naturais de Punta Mujeres ou Los Charcones — ficam perfeitos para o banho; e surgem faixas de areia que uma hora antes não existiam. Com maré alta, as enseadas pequenas encolhem e alguns caminhos costeiros fecham-se. A regra local: consulta a tabela de marés (qualquer aplicação faz isso) como quem consulta o tempo. O mar desta ilha é um relógio — aprende a lê-lo e chegarás sempre à hora certa.

Há um espetáculo em Lanzarote que se repete pontualmente duas vezes por dia e não cobra entrada: a respiração do oceano. As marés — esse lento sobe-e-desce que a Lua e o Sol provocam ao puxar a água do planeta — são aqui protagonistas discretas mas decisivas: no Atlântico canário, a diferença entre preia-mar e baixa-mar ronda o metro e meio em marés normais e pode ultrapassar os dois metros e meio nas marés vivas, as de lua cheia e lua nova, quando o Sol e a Lua puxam em equipa.

Porque é que isto te deveria importar em férias? Porque a ilha muda de forma com a maré, e o mesmo local pode ser duas experiências distintas consoante a hora.

O exemplo supremo é Famara. Com preia-mar, uma praia bonita. Com baixa-mar, um fenómeno: o mar recua centenas de metros e deixa uma planície de areia húmida e polida onde a falésia inteira se reflete como num espelho — a fotografia mais famosa do norte da ilha faz-se ali, nas duas horas à volta da maré baixa. Os charcos do litoral norte jogam o mesmo jogo: as piscinas naturais de Punta Mujeres e Charco del Palo, ou Los Charcones em Playa Blanca — essas lagoas turquesa talhadas na lava — desfrutam-se melhor com maré média ou baixa, quando a água fica quieta e transparente; com preia-mar e ondulação, o mar entra por cima e o banho plácido transforma-se numa máquina de lavar. Ao contrário também funciona: algumas enseadas de areia mostram a sua melhor versão com maré alta, quando a água cobre as rochas da margem.

A maré é também segurança. A baixa-mar deixa a descoberto plataformas de rocha escorregadia e provoca correntes de esvaziamento em baías e fozes; a preia-mar pode cortar o regresso pela base de uma falésia que uma hora antes se contornava a pé enxuto — precaução clássica em troços de costa selvagem. Os pescadores de costa, os marisqueiros (atividade regulada: as lapas têm a sua norma, não se apanha sem saber) e os surfistas vivem colados à tabela de marés; o visitante esperto, também. É fácil: qualquer aplicação meteorológica marítima ou uma pesquisa por "tabla de mareas Arrecife" dá os horários do dia, que se deslocam uns 50 minutos a cada jornada.

Bónus para curiosos: a maré alimenta duas maravilhas desta coleção. O lago dos Jameos del Agua sobe e desce discretamente com ela — o mar filtra-se pela rocha (card 01) —, e as salinas de Janubio (card 28) bebem do oceano graças a esse pulso. Até o Charco Verde de El Golfo se renova por filtração da maré.

Em resumo: o mar de Lanzarote tem horário, e é público. Metade dos melhores momentos da ilha — o espelho de Famara, o banho em Los Charcones, a longa caminhada pela margem — são encontros marcados com a maré. Marca-os na agenda.

Descobre Lanzarote com LMA

Mais histórias

Uma Ilha Esculpida pela NaturezaBranco, Verde e Vulcânico: a Arquitectura de LanzaroteCésar Manrique: o Artista que Moldou uma IlhaUm Oceano de AventurasVida Debaixo das OndasMil Anos de HistóriasO Sabor de um VulcãoUma Praia para Cada DiaVinho Criado na CinzaA Ilha que Escolheu a ContençãoOnde os Atletas Vêm SofrerA Gente que Fez esta IlhaAs Montanhas do FogoVela: navegar o mar dos alísiosPuerto del Carmen: a aldeia piscatória onde tudo começou (e o cantinho dos papagaios)Sobreviver sem chuva: os truques das plantas costeirasCriaturas de outro mundo debaixo dos teus pésQuinze milhões de anos: a veterana do arquipélagoMalpaís, lajial, hornitos: aprende a ler as lavasO túnel de lava que se mete no mar600 graus debaixo dos teus sapatosOnde os astronautas aprendem a pisar outros mundosO ouro branco: as salinas que alimentaram meia frotaA cochonilha: o inseto que tingiu de vermelho meia EuropaA Graciosa: a oitava ilha, sem alcatrão e sem pressaQuem vive na ilha (e quem a visita)?Ciclismo: o ginásio de inverno dos profissionaisO calendário da ilha: um ano inteiro de festas e eventosAloé vera: a farmácia verde da ilhaOs guardiões da ilha: os projetos que dela cuidamContos do diabo de TimanfayaA maior reserva marinha da Europa está aqui ao ladoPara além do turismo: o que a ilha exportaO caranguejo cego: branco, minúsculo e único no mundoVisitantes ilustres: um palácio oferecido entre reis e a casa que Omar Sharif perdeu às cartas2.053 dias de fogo: a crónica das erupçõesCultivar sem chuva: a engenharia camponesa que espanta o mundoO jardim suspenso de FamaraMeio vulcão, um lago verde e uma costa que rugeOs líquenes e as tabaibas: assim volta a vida depois de um vulcãoO diabo de Timanfaya e a Virgem que parou a lavaFilhos ilustres: o físico de Einstein, a voz de "El talismán" e o barbeiro de HaríaA ilha que os piratas não deixavam em pazO vento que explica (quase) tudoSurf: El Quemao, Famara e a onda que os campeões respeitam