Num lago subterrâneo no norte da ilha vive um animal que não existe em mais nenhum lugar do planeta. Chama-se jameíto (caranguejo cego albino), mede apenas um centímetro, é branco como o papel e completamente cego. Os seus parentes mais próximos vivem nas profundezas do oceano, a milhares de metros; ele, pelo contrário, habita a poucos passos da superfície, nas águas cristalinas dos Jameos del Agua. César Manrique transformou-o no símbolo do lugar, e hoje é quase o emblema não oficial da ilha. Vê-lo é fácil: são centenas de pontinhos brancos a brilhar na água escura. Protegê-lo também: nada de moedas, nada de flashes, nada de tocar na água.
O jameíto (Munidopsis polymorpha) é, tecnicamente, uma pequena lagosta cega. Foi descrito pela ciência no final do século XIX e desde então tem intrigado os biólogos: pertence a uma família de crustáceos que vive quase sempre nas planícies abissais, a profundidades enormes, na escuridão total do fundo oceânico. E, no entanto, aqui está ele, a poucos metros abaixo do nível do mar, no lago interior dos Jameos del Agua.
A explicação é o próprio túnel vulcânico. Quando o vulcão de La Corona formou o seu enorme tubo de lava, parte dele ficou inundada por água do mar que se infiltra através da rocha. O resultado é um habitat raríssimo: água salgada, parada, transparente e em penumbra perpétua — um pedaço de "mar profundo" encaixado dentro de uma ilha. Para o jameíto, esse lago é o universo inteiro. Não há outra população igual em todo o mundo.
O seu corpo conta a sua história: sem pigmento, porque no escuro as cores não servem de nada; sem visão funcional, porque os olhos também não; com antenas larguíssimas que usa para "ver" tocando e cheirando a água. Alimenta-se das partículas microscópicas que a maré empurra para dentro do tubo duas vezes por dia.
É também um animal frágil. O cobre de uma simples moeda lançada ao lago oxida-se e pode envenenar colónias inteiras — por isso é terminantemente proibido atirar seja o que for à água. A luz intensa e o ruído também os stressam. Quando visitares os Jameos, observa-o devagar: centenas de pontinhos brancos a mexer-se sobre a rocha negra, como estrelas num céu invertido.
César Manrique percebeu antes de todos o que tinha diante de si: transformou o caranguejinho no logótipo dos Jameos del Agua, e a sua silhueta está hoje espalhada por toda a ilha. Poucos lugares no mundo se podem gabar de algo assim: um animal que só existe aqui, numa gruta, e que cabe na ponta de um dedo.
