No El Golfo, o oceano comeu meio vulcão — e o que deixou é uma das imagens mais famosas da ilha: um anfiteatro de paredes douradas e, aos seus pés, uma lagoa dum verde impossível separada do mar por uma praia negra. A cor não é um filtro: é fabricada por microalgas adaptadas a uma água extremamente salgada. Na areia brilham cristais verdes de olivina, a gema do vulcão. E uns quilómetros a sul, nos Hervideros, a costa demonstra que a batalha continua: as ondas entram a rugir em grutas de lava e explodem em colunas de espuma. É o recanto onde melhor se vê o duelo eterno da ilha: fogo contra oceano.
Este canto do sudoeste concentra, em três paragens seguidas, uma aula magistral sobre o que acontece quando o fogo e o mar lutam entre si durante séculos.
Primeira paragem: El Golfo. Aqui houve um vulcão que cometeu um erro tático — nascer demasiado perto da água. Quando o magma ascendente toca água do mar, a erupção torna-se extraordinariamente explosiva: vapor a expandir-se com violência, cinzas e fragmentos disparados em ondas sucessivas. Foi assim que se construiu este cone, camada a camada, com aquela rocha dourada e estratificada que hoje vês esculpida pelo vento em formas de catedral. Depois, a ondulação fez o resto: século após século foi mordendo o edifício até levar metade inteira. O que resta é um anfiteatro aberto ao Atlântico — meio vulcão em corte, com as entranhas à vista, como um diagrama de manual à escala real.
No fundo do anfiteatro espera a estrela: o Charco de los Clicos, também chamado Lago Verde. É água do mar, filtrada e retida atrás duma barreira de areia negra, tão concentrada em sais que quase nada consegue viver nela. Quase. Umas microalgas especializadas prosperam aos milhões e tingem a água daquele verde-esmeralda intenso, que muda de tom consoante a estação e a luz. O contraste é irreal: arriba ocre, areia negra, lagoa verde, oceano azul — quatro cores puras num único enquadramento. O charco é zona protegida: contempla-se dos miradouros, sem descer à margem nem tomar banho. O seu nome, já agora, vem dos "clicos", um marisco que abundava aqui e que os pescadores apanhavam.
Um bónus geológico para olhos atentos: nas areias escuras da zona brilham por vezes pequenos cristais verdes e translúcidos. É olivina, um mineral que viaja no magma desde dezenas de quilómetros de profundidade — a versão gema chama-se peridoto. Olhá-los, fotografá-los, admirá-los: sim. Levá-los: não. Cada punhado que se vai embora num bolso é paisagem que nunca mais volta.
Última paragem: os Hervideros, uns quilómetros a sul. Aqui as lavas das erupções de 1730 chegaram ao mar e congelaram num labirinto de arribas, arcos e grutas. Quando entra ondulação, o oceano mete-se por essas galerias e o ar comprimido rebenta em explosões de espuma que fazem tremer o miradouro — o nome diz tudo: o mar parece ferver. Com mar bravo e luz de entardecer é um espetáculo hipnótico e gratuito.
Fogo que constrói, mar que destrói, vida que aproveita o resultado. Toda a biografia de Lanzarote, resumida em dez quilómetros de costa.
