Poucos lugares no mundo carregam a assinatura de um único artista como Lanzarote carrega a de César Manrique. Pintor, escultor, arquitecto e activista, ele não se limitou a decorar a sua ilha — mudou a forma como ela pensa sobre si própria.
Manrique nasceu em Arrecife em 1919 e cresceu a nadar nos seus portos e a explorar os campos de lava. Depois de estudar arte em Madrid e de uma temporada em Nova Iorque entre os gigantes da arte moderna, regressou a casa em meados dos anos 60 com uma convicção que parecia impossível: Lanzarote, então uma ilha pobre e pouco conhecida, podia tornar-se um dos lugares mais belos do planeta — se recusasse imitar quem quer que fosse.
O seu método era radical para a época: deixar a natureza liderar e a arte segui-la. Nos Jameos del Agua, transformou um túnel vulcânico desabado num espaço de sonho, com jardins, uma piscina branca e um auditório suspenso dentro de um tubo de lava, casa de minúsculos caranguejos albinos e cegos que quase não existem em mais lado nenhum. No Mirador del Río, escondeu um miradouro panorâmico dentro das falésias de Famara, de modo que a arquitectura desaparece e resta apenas a vista — o estreito de El Río e a ilha de La Graciosa. A sua própria casa, em Tahíche, foi construída dentro de cinco bolhas vulcânicas deixadas por uma torrente de lava; hoje alberga a Fundação César Manrique. A sua última grande obra, o Jardín de Cactus, converteu uma pedreira abandonada num jardim em espiral com mais de mil catos.
Encontrá-lo-á até nas rotundas: os seus juguetes del viento — brinquedos de vento — são esculturas metálicas e lúdicas que giram com os alísios, um lembrete de que aqui a arte pertence a todos, não aos museus.
Tão importante como o que fez foi o que impediu. Fez campanha incansável contra a construção em altura e a poluição visual, ajudando a manter Lanzarote baixa, branca e à escala humana. Quando morreu, em 1992, a ilha que imaginara já era real — e em 1993 a UNESCO reconheceu-a como Reserva da Biosfera.
Viajar por Lanzarote é conversar com Manrique. A sua resposta está em todo o lado: primeiro a natureza, sempre.
