Esse tabuleiro de xadrez rosa, branco e ocre junto ao mar do sudoeste não é arte moderna: são as Salinas de Janubio, as maiores das Canárias. Antes do turismo, o sal era o petróleo da ilha — sem ele não havia forma de conservar o peixe, e a frota que faenava em África dependia destes cristais. Janubio chegou a produzir milhares de toneladas por ano com uma tecnologia perfeita: mar, vento, sol e mãos. Os tons rosados são obra de uns microrganismos que adoram sal extremo; os flamingos, em escala migratória, fazem o resto. Hoje o sal volta a ser colhido de forma artesanal — e a flor de sal de Janubio viaja até às melhores cozinhas de Espanha.
Houve um tempo em que a riqueza desta ilha se media em branco. Sem frigoríficos, a única forma de conservar peixe era o sal, e Lanzarote vivia do mar: a sua frota faenava no banco de pesca africano, a um passo daqui, e cada barco carregava toneladas de sal para salgar a captura a bordo. O sal era estratégico — como o combustível é hoje — e a ilha, com um sol feroz, vento constante e costa baixa, era uma fábrica natural perfeita.
As Salinas de Janubio, as maiores do arquipélago, nasceram no final do século XIX sobre um presente do vulcão: as erupções de 1730 fecharam uma antiga baía e transformaram-na em laguna — o local exato onde o mar podia ser domado. O sistema é uma coreografia de engenharia tradicional: a água entra na laguna, uns moinhos de vento bombeiam-na para os cocederos — tanques amplos onde o sol a vai concentrando — e dali passa às tajerías, o mosaico de quadrículas onde acaba de evaporar até solidificar em cristal. Os salineiros "colhem" então o sal à mão, com ancinhos, e amontoam-no em pirâmides brancas que brilham ao sol como icebergues em miniatura. Nos seus melhores anos, Janubio produziu cerca de dez mil toneladas anuais e deu trabalho a centenas de famílias.
As cores que fotografas têm explicação científica: em águas hipersalinas só sobrevivem microrganismos extremófilos, e vários fabricam pigmentos rosados e alaranjados para se protegerem do sol — quanto mais concentrada a salmoura, mais intenso o rosa. O resultado é essa paleta impossível: tanques cor-de-rosa-chiclete junto a tanques brancos e espelhos anil, emoldurados por muros de pedra negra. A vida selvagem aproveita a invenção: borrelhos, pernilongos-pretos e, nas migrações, flamingos que fazem escala transformando o postal numa cena africana.
O frigorífico doméstico reformou o ouro branco a meio do século XX e as salinas canárias foram morrendo uma a uma. Janubio resistiu, e hoje vive um renascimento artesanal e gourmet: sal marinho virgem e uma flor de sal — os cristais finíssimos que se formam à superfície nos dias perfeitos — que os chefs disputam entre si. O conjunto está protegido como Sítio de Interesse Científico, pode ser visitado, e tem até um irmão mais velho e venerável: as pequenas Salinas del Río, aos pés da arriba de Famara, consideradas as mais antigas das Canárias.
Compra um pacote de sal antes de partires. É o souvenir mais honesto da ilha: paisagem, história e oceano Atlântico, cristalizados juntos.
