Se algo governa esta ilha, não é nenhuma câmara municipal: é o vento. Os alísios — esse sopro constante do nordeste — são o ar condicionado natural que mantém os verões frescos enquanto o continente torra. E são o arquiteto secreto de tudo o que vês: por causa deles as vinhas escondem-se em buracos atrás de muretes de pedra, as casas são baixas e de janelas pequenas, os moinhos moíam gofio e bombeavam salmoura, e a areia viaja num rio lento que atravessa a ilha inteira. Quando o vento muda e sopra de leste, traz calima — pó do Saara em suspensão e calor africano. Aprende a ler o vento e saberás que dia fará amanhã… e porque é que a ilha é como é.
A primeira coisa que qualquer visitante repara ao descer do avião não é o calor nem a paisagem: é a brisa. Bem-vindo à terra dos alísios, os ventos de nordeste que o anticiclone dos Açores fabrica e envia para as Canárias com pontualidade de funcionário suíço. Sopram quase todo o ano e com mais força no verão — precisamente quando são mais bem-vindos: enquanto meia Europa e a vizinha África ultrapassam os quarenta graus, os alísios mantêm a ilha ventilada nuns civilizados vinte e tal. São a razão meteorológica da "primavera eterna", e a primeira lição local: aqui o verão não se sofre, navega-se.
Mas os alísios não se limitam a refrescar: há séculos que são o mestre-de-obras da ilha. Toda a agricultura é uma negociação com eles — cada vinha de La Geria vive no seu buraco atrás do seu zoco de pedra, cada horta do Jable tem o seu corta-vento, e as árvores de fruto crescem inclinadas, "penteadas" para sudoeste como bandeiras vegetais que apontam sempre para a mesma direção. A arquitetura tradicional também é filha do vento: casas baixas, compactas, caiadas, de janelas pequenas e pátios interiores onde a vida se resguarda. Os moinhos — essas torres brancas de pás espalhadas pela ilha — foram as suas primeiras "centrais": moíam o gofio e bombeavam a salmoura das salinas. E até o solo viaja com ele: o corredor de areia de El Jable atravessa a ilha de costa a costa, empurrado, grão a grão, pelo alísio — um rio que flui à velocidade dos séculos.
O século XXI encontrou-lhe usos novos. Os parques eólicos transformam o sopro em eletricidade; Famara é santuário de surf e kitesurf de nível mundial; e em Costa Teguise, o windsurf tem condições de campeonato boa parte do ano. Até a arte aderiu: os Juguetes del Viento ("Brinquedos do Vento") de César Manrique — essas esculturas móveis brancas e vermelhas nas rotundas — são exatamente o que o nome diz: moinhos gigantes que dançam para o alísio, presente do artista ao sócio invisível da ilha.
E depois há o outro vento, o convidado incómodo. Quando o fluxo se inverte e entra de leste ou de sudeste, chega a calima: ar saariano carregado de pó em suspensão que amarelece o céu, esbate os vulcões e faz disparar os termómetros. Costuma durar poucos dias; os locais fecham as janelas, bebem água e esperam — e os fotógrafos atentos saem à caça dessas luzes douradas de fim do mundo. Conselho prático: se houver calima forte, é dia perfeito para museus, adegas e a Cueva de los Verdes.
Moral insular: aqui ninguém fala do tempo só por falar. O vento é história, economia, desporto e previsão — tudo num só. Escuta-o.
